Açúcar vicia mesmo? O que a ciência sabe sobre aquela vontade difícil de controlar

Você termina o almoço e pensa em uma sobremesa.

À tarde, bate aquela vontade de comer alguma coisa doce. À noite, mesmo sem estar exatamente com fome, aparece novamente a ideia de chocolate, biscoito ou sorvete.

Quando isso acontece com frequência, é fácil chegar a uma conclusão: “Eu sou viciado em açúcar.”

A sensação pode ser muito real. A pergunta é se a explicação também é.

A ciência mostra que alimentos doces podem mexer com o sistema de recompensa do cérebro, aumentar o desejo de comer e ajudar a criar hábitos difíceis de abandonar.

Mas chamar isso de vício em açúcar, no mesmo sentido de uma dependência de nicotina, álcool ou outras drogas, é um passo que as evidências disponíveis em humanos ainda não permitem dar com segurança.

Então, se não é tão simples quanto “o açúcar vicia”, por que às vezes parece tão difícil parar?

Seu cérebro aprende rapidamente o que vale a pena repetir

Comer não serve apenas para fornecer energia.

A alimentação também envolve prazer, memória, expectativa e aprendizado.

Quando experimentamos algo agradável, diferentes regiões do cérebro participam de um sistema que ajuda a registrar aquela experiência como algo importante.

A dopamina faz parte desse processo.

Ela costuma ser chamada de “hormônio do prazer”, mas essa explicação simplifica demais o que acontece.

A dopamina está bastante envolvida com motivação, aprendizado, expectativa e importância atribuída a uma recompensa.

Imagine que você tenha o hábito de comer um chocolate todas as tardes enquanto toma café.

Depois de algum tempo, o próprio horário, o cheiro do café ou simplesmente sentar-se naquele lugar podem fazer surgir vontade de chocolate.

O cérebro aprendeu a associação.

Isso ajuda a entender por que podemos desejar um alimento mesmo quando não estamos com muita fome.

Então açúcar ativa o mesmo cérebro que as drogas?

Existe alguma sobreposição, mas isso não significa que os efeitos sejam iguais.

Alimentos saborosos e drogas podem envolver partes do sistema cerebral de recompensa. Mas esses circuitos não existem exclusivamente para responder a drogas.

Comida, relações sociais e várias outras experiências importantes para a sobrevivência também envolvem mecanismos de recompensa.

Portanto, dizer que açúcar e determinadas drogas podem afetar algumas regiões cerebrais relacionadas à recompensa não demonstra que ambos provoquem o mesmo tipo ou a mesma intensidade de dependência.

Essa distinção é importante porque uma frase muito repetida é que açúcar seria tão viciante quanto, ou até mais viciante que, cocaína.

As evidências disponíveis em humanos não sustentam essa comparação.

De onde veio, então, a ideia de “vício em açúcar”?

Parte importante dessa história nasceu de pesquisas com animais.

Em experimentos com ratos, pesquisadores observaram comportamentos que lembram alguns aspectos encontrados em dependências.

Um trabalho bastante conhecido, publicado por Nicole Avena, Pedro Rada e Bartley Hoebel, reuniu experimentos nos quais ratos tiveram acesso intermitente a soluções açucaradas.

Em determinadas condições, os animais apresentaram consumo exagerado, aumento da motivação para obter açúcar e alterações em sistemas cerebrais relacionados à dopamina e aos opioides.

Também foram observados sinais interpretados pelos pesquisadores como semelhantes à abstinência em alguns experimentos.

Isso é relevante cientificamente.

Mas existe uma diferença enorme entre dizer “ratos submetidos a determinadas condições experimentais apresentaram comportamentos semelhantes aos encontrados em dependência” e concluir que “açúcar causa dependência química em seres humanos”.

São afirmações diferentes.

O detalhe do experimento que muda bastante a história

Uma revisão publicada por Margaret Westwater, Paul Fletcher e Hisham Ziauddeen analisou justamente as evidências sobre dependência de açúcar.

Os pesquisadores chamaram atenção para um detalhe importante: nos estudos com animais, os comportamentos semelhantes à dependência aparecem principalmente quando existe acesso intermitente ao açúcar.

Em outras palavras, os animais não estavam simplesmente vivendo uma situação equivalente à de alguém que mantém açúcar disponível normalmente em casa.

Havia períodos de disponibilidade e restrição.

Segundo os autores, as evidências em humanos eram insuficientes para concluir que o açúcar, isoladamente, provoca uma dependência semelhante à causada por drogas.

Isso não torna o consumo excessivo de açúcar irrelevante.

Significa apenas que precisamos separar duas perguntas:

Consumir açúcar em excesso pode ser prejudicial? Sim, existem boas razões para limitar açúcares

livres na alimentação.

Isso prova que açúcar seja uma droga viciante? Não.

São assuntos diferentes.

Mas por que algumas pessoas sentem que “não conseguem parar”?

Aqui entramos em uma área mais complexa.

Nosso comportamento alimentar não depende apenas de uma substância.

Sabor, rotina, disponibilidade, fome, emoções, experiências anteriores e o ambiente podem influenciar

quanto e o que comemos.

Pense novamente no chocolate depois do almoço.

Talvez você tenha repetido isso centenas de vezes.

Chega um momento em que terminar a refeição praticamente aciona o próximo comportamento: procurar alguma coisa doce.

Isso pode ser um hábito.

Em outras situações, uma pessoa pode perceber episódios em que é muito difícil controlar quanto come.

Isso pode envolver comportamento compulsivo.

Nenhuma dessas situações precisa ser automaticamente classificada como dependência química de açúcar.

Hábito, compulsão e dependência não são a mesma coisa

As palavras parecem semelhantes no cotidiano, mas representam coisas diferentes.

Hábito é um comportamento que se tornou automático. O contexto funciona quase como um lembrete. Café pode lembrar biscoito. Cinema pode lembrar pipoca. Depois do almoço pode lembrar sobremesa.

Compulsão envolve uma dificuldade maior de controlar determinado comportamento. Emoções, estresse, restrições alimentares e diversos outros fatores podem participar desse processo.

Dependência, quando falamos de substâncias, envolve critérios clínicos específicos. Entre eles podem estar perda persistente de controle, tolerância, abstinência, continuidade do uso apesar de prejuízos e impacto importante na vida da pessoa.

É justamente nesse último ponto que a ideia de “dependência de açúcar” encontra dificuldades.

Até hoje, não existe demonstração convincente de que o açúcar, isoladamente, produza em seres humanos o mesmo conjunto de características observado nas dependências clássicas de substâncias.

E a chamada “dependência alimentar”?

Essa discussão é um pouco diferente.

Em vez de estudar exclusivamente o açúcar, alguns pesquisadores investigam aquilo que ficou conhecido como “food addiction”, ou dependência alimentar.

Uma revisão sistemática publicada em 2018 analisou 52 estudos, incluindo pesquisas com humanos e animais.

Os autores encontraram evidências de características relacionadas à recompensa cerebral e à dificuldade de controle, principalmente envolvendo alimentos muito palatáveis e processados, frequentemente ricos em açúcares adicionados e gorduras.

Ao mesmo tempo, os próprios pesquisadores destacaram limitações importantes e a necessidade de mais estudos.

Há outro problema: muitos estudos em humanos dependem de questionários e observações.

Isso permite encontrar associações, mas nem sempre permite descobrir o que causou o quê.

Uma pessoa que apresenta mais sinais de alimentação problemática pode consumir mais alimentos açucarados. Isso não prova, sozinho, que o açúcar tenha provocado o comportamento.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2022 encontrou diferenças no padrão alimentar de pessoas classificadas com e sem “food addiction”, incluindo maior consumo de determinados alimentos e nutrientes entre aquelas que apresentavam esses sintomas.

É uma pista interessante, mas ainda não transforma o açúcar isoladamente em uma substância comprovadamente viciante.

“Parei de comer açúcar e fiquei irritado.” Isso é abstinência?

Não necessariamente.

Algumas pessoas relatam irritabilidade, dor de cabeça, fome, desejo intenso por doces ou simplesmente a sensação de que “está faltando alguma coisa” quando mudam a alimentação.

Essas sensações não devem ser ignoradas.

Mas também não podem ser usadas isoladamente como prova de abstinência química.

Imagine alguém que durante anos tomou café adoçado todas as manhãs.

Um dia, o açúcar desaparece.

O sabor muda. A rotina muda. A expectativa criada durante anos não é atendida.

É perfeitamente possível sentir falta daquela experiência.

Além disso, mudanças maiores na alimentação podem alterar horários, quantidade de comida ingerida, consumo de cafeína e vários outros aspectos ao mesmo tempo.

Por isso, sintomas vagos como irritabilidade ou dor de cabeça não permitem concluir que exista uma síndrome de abstinência causada pelo açúcar.

Isso significa que não precisamos nos preocupar com açúcar?

Também não.

Questionar a ideia de “vício em açúcar” não significa defender consumo ilimitado.

A Organização Mundial da Saúde recomenda reduzir o consumo de açúcares livres para menos de 10% da energia total consumida ao longo do dia e sugere que ficar abaixo de 5% pode trazer benefícios adicionais.

Açúcares livres incluem aqueles adicionados a alimentos e bebidas e também os presentes naturalmente em mel, xaropes, sucos e concentrados de frutas.

A recomendação está relacionada principalmente à prevenção do ganho de peso não saudável e de cáries dentárias.

Perceba a diferença.

Não precisamos transformar açúcar em uma droga para reconhecer que consumi-lo em excesso pode ser um problema.

Talvez a pergunta mais útil seja outra

Em vez de perguntar apenas:

“Será que sou viciado em açúcar?”

pode ser mais útil observar:

“Por que estou querendo comer isso agora?”

É fome?

É hábito?

É porque está disponível?

É uma sobremesa que sempre aparece depois daquela refeição?

É uma resposta ao estresse?

É simplesmente porque aquele alimento é muito gostoso?

Nosso comportamento alimentar nasce da combinação de muitos fatores.

O cérebro participa. O ambiente participa. Nossos hábitos participam. A própria composição e o sabor dos alimentos também participam.

Reduzir tudo isso à palavra “vício” pode parecer uma explicação simples, mas corre o risco de esconder justamente a parte mais interessante da história.

Afinal, açúcar vicia ou não?

Com as evidências disponíveis, não é correto afirmar que o açúcar cause em humanos uma dependência equivalente à provocada por drogas como nicotina, álcool ou cocaína.

Existem evidências de que alimentos saborosos envolvem sistemas cerebrais de recompensa e podem aumentar motivação, desejo e repetição do consumo.

Existem também experimentos em animais mostrando comportamentos semelhantes à dependência em condições específicas de acesso intermitente ao açúcar.

E existe uma linha de pesquisa sobre “dependência alimentar”, especialmente envolvendo alimentos altamente processados e palatáveis.

Mas nenhuma dessas coisas, isoladamente ou em conjunto, prova que o açúcar seja uma droga viciante para seres humanos.

Talvez essa seja justamente a conclusão mais interessante.

Você não precisa chamar o açúcar de droga para entender por que pode ser tão difícil dizer não a um doce.

O cérebro aprende, cria expectativas e transforma comportamentos repetidos em hábitos.

E, algumas vezes, compreender esse mecanismo explica muito mais do que simplesmente chamá-lo de vício.

Fontes

Westwater ML, Fletcher PC, Ziauddeen H. Sugar addiction: the state of the science. European Journal of Nutrition. 2016;55(Suppl 2):55–69.

DOI: 10.1007/s00394-016-1229-6

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5174153/

Gordon EL, Ariel-Donges AH, Bauman V, Merlo LJ. What Is the Evidence for “Food Addiction?” A Systematic Review. Nutrients. 2018;10(4):477.

DOI: 10.3390/nu10040477

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5946262/

Avena NM, Rada P, Hoebel BG. Evidence for sugar addiction: behavioral and neurochemical effects of intermittent, excessive sugar intake. Neuroscience & Biobehavioral Reviews. 2008;32(1):20–39.

DOI: 10.1016/j.neubiorev.2007.04.019

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17617461/

Reche-García C, Piernas C, Martínez-Rodríguez A, Sánchez-Guerrero A, Hernández-Morante JJ. Dietary intakes among people with vs without food addiction: A systematic review and meta-analysis. Clinical Nutrition. 2022;41(8):1770–1780.

DOI: 10.1016/j.clnu.2022.06.033

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35816869/

World Health Organization (WHO). Guideline: Sugars intake for adults and children. Geneva: World Health Organization; 2015.

https://www.who.int/publications/i/item/9789241549028/

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Carlos de Lacerda

Carlos de Lacerda

Fundador e Editor

Pesquisa e produz conteúdos sobre açúcar, alimentação e saúde, buscando tornar informações e evidências científicas mais simples de entender e aplicar no dia a dia.

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